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Rio 450: Maioridade?


Publicado originalmente de 2 de março de 2015
Quando uma cidade e sua sociedade atingem a maioridade?  Provavelmente, a resposta varia caso a caso, conforme fatores culturais, econômicos, geográficos, dentre outros. No caso do Rio de Janeiro, aos 450 anos a cidade parece longe de atingir maioridade.
Não atingimos maioridade penal. A impunidade reina na cidade – no trânsito, nos bairros ricos, nas comunidade mais pobres, nos pequenos delitos e jeitinhos, em todos os cantos. Desde o vaga certa que não emite o talão, ao trombadinha que furta bicicletas, ao bandido que sequestra uma médica num shopping de classe alta, ao assassino que tira a vida de um turista. O Carnaval, símbolo da cidade, agora tem até patrocínio de ditadura.
Não atingimos maioridade na cidadania. O carioca que fica chocado com o noticiário policial é o mesmo que avança o sinal no rush matinal para economizar meio minuto e, com isso, arrisca atropelar um ciclista. O cidadão que reclama do motorista imprudente é o mesmo que picha o muro emporcalhando a cidade. O sujeito que repudia a pichação é o mesmo que bloqueia um cruzamento. O carioca é o crítico complacente. É o jovem que fala mal dos colegas mas não enxerga seus defeitos.
Aos 450 anos, precisamos multar aqueles que jogam lixo na rua. Precisamos pedir às pessoas que não urinem nas calçadas. Desarrumamos nosso próprio quarto e nos recusamos a fazer nossa cama. Somos crianças mal-educadas.
Aos 450 anos, tentamos melhorar o trânsito com o paliativo da inversão de mão, algumas delas com mais de 30 anos de idade, alheias ao fato de que a cidade teve outros eixos de expansão. Somos o adolescente que posterga compromissos julgando ter todo o tempo do mundo à disposição.
Aos 450 anos, nossa solução de transporte em massa é risível – Criar uma pista de ônibus-rápidos, mas subtraindo uma pista regular de rodagem. Tapar o sol com a peneira não é condizente com maioridade.
As cidades europeias têm obras públicas que servem a população há mais de 450 anos. No Rio de Janeiro, o asfalto é trocado a cada dois anos. Os Jogos Panamericanos que sediamos não deixaram um legado sequer, idem a Copa do Mundo. Estamos engatinhando no que tange planejamento de longo prazo.
Carlos Lacerda construiu o Túnel Rebouças e o Aterro do Flamengo. A sociedade carioca à época julgava os projetos desnecessários. Mostra que somos curto-prazistas tal como crianças pequenas com medo da injeção.
No “Rio 40 graus”, temos transporte coletivo sem ar condicionado. Temos ainda fios de eletricidade voando pelas nossas cabeças. Temos uma expansão desordenada das comunidades. Temos plano urbanístico sem nexo algum, que permite popular uma mesma rua com prédios altos, baixos, gordos, magros, das mais variadas cores. Caos e carnaval.
Também não atingimos maioridade política. O Rio de Janeiro, tido como cidade de vanguarda intelectual, ajudou a reeleger um governador com imensa votação em primeiro turno para, pouco tempo depois, acampar em frente à sua residência pedindo seu afastamento. E, num zigue-zague de humor infantil, logo em seguida reelegeu um sucessor untado por ele.
O Rio de Janeiro, tido como tão politizado, foi fator decisivo para reeleger a atual presidente. O carioca, tal qual uma criança na pré-escola, acreditou em conto de fadas – endossou o “progressismo” do PT e, agora, apenas cinco meses depois, revolta-se com a dura realidade: juros ascendentes, conta de luz exorbitante, escândalos de corrupção e outros “malfeitos”. A criança contrariada dará sua resposta na manifestação de 15 de Março, do alto dos seus 450 anos.
O Rio de Janeiro e o Brasil jamais atingirão a maioridade enquanto não houver apreço pela vida. Aqui, mata-se por qualquer coisa. Aqui, mata-se rápido e mata-se devagar. O assaltante  impune e o político que desvia verbas da educação. O motorista irresponsável e o saneamento público precário. A interrupção da esperança num tiro e a desesperança ininterrupta. O pobre e o rico.
Nossos 450 anos serão comemorados com língua-de-sogra e guaraná.

(Publicado originalmente em http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/cultura/rio-450-maioridade/)

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