Skip to main content

Vendaval da mudança?

O vendaval que destruiu a estrutura da árvore de Natal da Lagoa reacendeu animosidades de alguns cariocas. Nas redes sociais, pôde-se ver uma onda de comentários comemorando o possível cancelamento da festividade este ano, enquanto outros moradores torcem para que a árvore seja consertada a tempo do Natal.

Certamente a árvore de Natal gera movimento intenso de carros e pessoas e traz mais transtorno ao já caótico trânsito de dezembro na cidade (não que o trânsito seja bom nos demais meses...). Os moradores da Lagoa e bairros próximos têm, portanto, motivo legítimo para criticar a árvore: ela atrapalha enormemente seu ir e vir.

Por outro lado, a árvore é uma diversão gratuita, atraindo moradores de áreas mais pobres e constituindo ótimo programa familiar numa época de confraternização. Ademais, o evento movimenta bastante o comércio da orla da Lagoa (formal e informal), ocasionando receitas relevantes aos quiosques e ambulantes. O município também se beneficia, levando à rua hordas de guardas com talonários de multa sempre à mão - um exército com o mandato de reforçar o caixa e, se der, ajudar a organizar o trânsito.

Este debate - reiniciado pelo vendaval - deveria inspirar mudanças à maneira como a prefeitura organiza o evento. Hoje, de fato, a árvore da Lagoa não traz nenhum benefício duradouro à cidade, Se houvesse distribuição gratuita de pipoca, seria o perfeiro "pão e circo" - mas hoje é apenas um circo que ajuda o carioca a esquecer o quadro lamentável da economia da cidade, os impostos crescentes, a má conservação de ruas e monumentos e, principalmente, as obras que nunca terminam. Há ainda o agravante bairrista de que é uma empresa paulista que explora o cartão postal carioca. 

Há muito espaço para melhorar...

A prefeitura deveria estabelecer uma licitação a cada cinco ou dez anos para a exploração da árvore da Lagoa. As empresas que desejarem gozar desta peça de publicidade ofertariam um pacote de melhorias longevas à cidade, concentradas nos bairros próximos à Lagoa e com marcos anuais (que, se não cumpridos, implicariam na perda da concessão). O pacote de melhorias mais atratente determinaria a empresa vencedora. Alguns exemplos de obras que teriam grande serventia: reasfaltamento e expansão da ciclovia, construção de estacionamentos subterrâneos, revitalização e manutenção de canteiros, instalação de câmeras de segurança... E também a tal da despoluição da Lagoa, já falada e debatida há décadas, mas nunca concretizada.

A licitação por meio de benfeitorias evitaria a circulação de dinheiro, minimizando o risco de corrupção no processo. Além disso, os moradores do entorno da Lagoa - indiscutivelmente prejudicados nos meses do evento - teriam uma contrapartida poderosa. O evento deixaria de ser "pão e circo" e traria dividendos à cidade.

Caso a árvore de Natal acenda este ano, ela deveria se vestir de luto pelo ciclista que foi esfaqueado e morto na Lagoa e pelo nosso legislativo que insiste em proteger jovens bandidos.

Comments

Popular posts from this blog

O candidato antifrágil

O autor Nassim Taleb cunhou o termo antifrágil para descrever mecanismos ou sistemas que se tornam mais robustos quando expostos a intempéries. Normalmente, encontra-se a antifragilidade em populações, ao passo que o indivíduo é – em geral – frágil.
Restringindo a análise ao campo político e aos últimos 6 meses, Jair Bolsonaro talvez seja um dos poucos indivíduos antifrágeis já observados. Quanto mais é agredido – seja por adversários ou pelos “jornalistas” – mais cresce nas pesquisas.
Há 6 meses, todos os analistas políticos diziam que Bolsonaro não estaria no 2º turno. Ponderavam que sem partido forte, sem aliados, sem coligação e sem tempo de TV, seria apenas um modismo. Erraram: hoje a questão é quem estará no 2º turno com ele. Ou, mesmo, se haverá um 2º turno.
Ninguém pode afirmar que entende a dinâmica que está acontecendo, mas este artigo tenta formular uma hipótese.
**
Jair Bolsonaro estabeleceu-se como a alternativa anti-establishment. Não importa se já está em seu sétimo mandato …

Fogo vermelho

“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la” (Edmund Burke)
O museu mais visitado do Brasil é o Museu do Amanhã no Rio de Janeiro. Trata-se de um prédio com arquitetura arrojada – embora de gosto discutível – e sem acervo algum.
Apesar do conteúdo praticamente inexistente, hordas de jovens “culturamente engajados” visitam o “museu” para tirar uma boa dose de selfies e postá-las nas redes sociais. São quase um milhão e meio de visitantes por ano, contra cerca de 500 mil do MASP, para desgosto de Cândido Portinari e Anita Malfatti.
Com esse retrospecto, não era de se esperar que a juventude brasileira capturasse a magnitude da tragédia que foi o incêndio do Museu Nacional e a destruição de muitas de suas preciosas peças e coleções. Ainda assim, mesmo munindo-se das piores expectativas, não houve como não se surpreender pela baixeza com que autoridades e populares se comportaram.
**
Diante do luto de historiadores, museólogos e brasileiros em geral, viu-se um lamentável…

Primeiros erros?

“Se um dia eu pudesse ver, meu passado inteiro... Eu faria parar de chover, nos primeiros erros” (Capital Inicial e Kiko Zambianchi)
Mal o novo governo tomou posse e a imprensa já abriu suas baterias. Jornalistas paus-mandados ou a serviço de uma desbotada ideologia, ou simplesmente canalhas, perderam o tênue compromisso com a verdade que ainda tinham. Pululam nos veículos de mídia matérias tendenciosas, levianas e vergonhosas.
É incrível a quantidade de “balanços” ou “retrospectivas” dos 10 (dez!) primeiros dias (dias!) de governo. Pergunta: levam em conta o fim-de-semana como dia útil?
Manchetes como “General Mourão terá 65 assessores” encabeçam, na verdade, um relato sobre o corte de aproximadamente 50% no número de assessores que o vice-presidente já empreendeu logo de início e que resultou em 65 assessores ao final. Almejava um corte maior, mas a lei não permitiu. Contudo, o jornalista quer criar a falsa impressão de gastança para o leitor desavisado. Há centenas de “furos” de r…