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Santa incompetência

Os liberais advogam, há muito, que o estado deve se preocupar com educação, saúde e segurança; e que todo o resto deve ser privatizado. Em geral, quando isso é bem feito, funciona lindamente: o estado torna-se menor e, com menos impostos, consegue prestar serviços melhores. Concomitantemente, a iniciativa privada imprime bom funcionamento em outros serviços, tais como aeroportos, zoológicos, etc.

Mas nosso prefeito-pastor Crivella e seus apóstolos lograram o incrível feito de piorar certos serviços públicos após privatizá-los: um milagre!

Crivella e seu séquito licitaram a operação de certas ilhas de estacionamente em alguns pontos da cidade. Estes locais eram antes atendidos pelos vaga-certas (ou flanelinhas, como alguns chamam), cuja função era apenas coletar R$ 2 do motorista e anotar a placa do carro e o horário de chegada num tíquete.

Não há dúvida de que o vaga-certa é um sistema arcaico, um emprego de mão-de-obra keynesiano que gera valor zero ou negativo para a sociedade. Um parquímetro dos anos 60 funcionaria melhor. Ou, sonhando mais alto, por que não utilizar uma máquina com terminal de cartão de crédito e conectada a aplicativo de celular que permitiria ao usuário adicionar mais tempo de uso da vaga quando desejasse?

A boa-nova é que Crivella – ao licitar as áreas – conseguiu ocupar mais gente! Que bênção maravilhosa: menos gente desempregada, mais lares com providência, mais riqueza na cidade... Uma dádiva!

Mas não é bem assim que termina a parábola, infelizmente. Algumas empresas agraciadas com a concessão empregam cinco ou seis boletadores onde antes havia um ou dois flanelinhas. O pecado desse novo sistema é um estacionamento que custa múltiplas vezes mais para o usuário. Exemplo: uma família que antes passava três horas Parque dos Patins na Lagoa pagando R$ 2 de estacionamento, agora tem que desembolsar R$ 6 por hora, totalizando dízimo de R$ 18. Traduzindo: a família é onerada com seu quinhão do salário de uma mão-de-obra inútil, o que encarece o custo de lazer, diminui o tráfego de pessoas no parque e causa queda nas vendas de águas, sucos, sanduíches e picolés nos quiosques, diminuindo a renda de todo o ecossistema.

Menos mau seria se ao menos o novo estacionamento funcionasse bem. Mas o sistema idiótico de usar tecnologia matusalênica e cobrar por tempo de permanência significa o seguinte: quando chove e todo mundo corre para seus carros, a fila de cobrança na saída fica engargalada. Será que nenhum dos apóstolos teve essa visão divina ao conceder a licitação?  Precisa-se de um profeta na prefeitura.

E quando houver uma emergência médica e portanto a necessidade de um carro sair às pressas? Será que a fila se abrirá como o Mar Vermelho? É bom os cariocas portarem seus cajados mágicos em seus carros.

Com certeza, João Dória fará melhor.

A licitação desastrada das áreas de estacionamento é apenas um capítulo do evangelho segundo Marcelo. Uma danação para a cidade e para os cariocas que precisarão de uma paciência de Jó para aguentar esse infeliz por mais três anos. Deus nos acuda... 


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