Aneystia

(Por: Mariano Andrade)


Esse texto é uma quase-carta-aberta ao menino Ney. 

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Antes que haja qualquer confusão, o menino Ney não é aquele atleta que cai toda hora e que tenta ludibriar a arbitragem com gol de mão. Aqui, trata-se de Ney Matogrosso, um senhor de 84 anos, mas que esbanja a alegria de um menino ao subir no palco e encontrar seus fãs.

Já havia visto Ney cantar em outras épocas e, num espetáculo recente, pude constatar que sua força de interpretação melhorou com o tempo. Desfilando por um repertório com vários temas compostos e popularizados por outros artistas, Ney mostra que é capaz de imprimir urgência, tristeza, alegria, serenidade e outros muitos sentimentos a cada canção, conforme deseje fazê-lo. Ney rearranja, repagina, revigora os temas e os combina numa belíssima apresentação. Tudo isso com a energia e o sorriso de um menino.


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Num show sem clichês, coube ao público desferir um. “Sem anistia! Sem a-nis-ti-a!”, gritou a massa de manobra a certa altura da apresentação, no intervalo entre duas músicas. Ney respondeu: “Olha, eu quero falar da próxima canção que apresentaremos...”, e tocou a ficha.

Mas os robôs são programados para repetir a tarefa e, alguns números à frente, novamente ouviu-se “Sem a-nis-ti-a! Sem anistia!”. Dessa vez, Ney deu uma risada, talvez de sem-graça, talvez de reprovação, talvez de pena. E, de novo, seguiu impávido no setlist planejado.

Ney Matogrosso muito raramente falou publicamente sobre política. E, nas esporádicas ocasiões em que o fez, exibiu discrição e moderação. Ao contrário de outros ícones da música brasileira, Ney nunca virou panfletador, nunca quis que seu posicionamento político falasse mais alto do que sua arte e – nesse contexto – os brados acéfalos de “sem anistia” são um desrespeito, quase uma ofensa, ao artista Ney Matogrosso.

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Talvez Ney quisesse falar alguma coisa a respeito do tema, mas sorriu e deixou de lado. Quem sabe em algum show vindouro, Ney deseje responder ao público. Como ele sempre se mostrou ponderado sobre política e, principalmente, sobre políticos, imagino abaixo o que Ney talvez tenha a dizer sobre o assunto, com a coragem de um homem com H.

“Anistia... Vocês o que é isso? Sabem qual o propósito de uma anistia? Porque para gritar ‘sem anistia’ é importante saber o que se está pedindo e como isso fala sobre o compasso moral de cada um de vocês.

Anistia é um reconhecimento de que a Justiça não consegue dispensar o devido processo legal para julgar envolvidos em um determinado evento ou conjunto de eventos. A Justiça não é infalível e, para evitar uma alta probabilidade de falhas e inconsistências graves, os indivíduos são anistiados.

Quem pede que não haja anistia talvez considere que a Justiça brasileira não falha. Não é uma boa premissa, já que várias pessoas presas pelo 8 de janeiro foram soltas posteriormente, pois concluiu-se que não tinham envolvimento com os atos violentos. Algumas sequer estavam em Brasília. Foram soltas e a Justiça pôde lhes devolver sua liberdade, mas não o tempo que lhes foi subtraído, nem a saúde que perderam. A Justiça tampouco pôde apagar o sofrimento de seus familiares.

Mais de 1400 pessoas foram presas. Muitas continuam encarceradas ou em prisão domiciliar. Mas boa parte foi solta. Então, será que todos os erros foram reparados? Será que todas as pessoas hoje presas tiveram seus direitos civis observados e seguem presas pois não há dúvida razoável sobre seu delito? É difícil acreditar nisso.

E, se há uma única pessoa ainda presa injustamente, será que a vida dessa pessoa é descartável, é um dano colateral aceitável para que outras tantas sejam punidas? Se vocês acreditam que sim, por consistência, deveriam considerar válida a pena de morte, pois matar um inocente seria um custo aceitável no processo de punir assassinos e estupradores.

Não estou falando se houve ou não tentativa de golpe, não me cabe e não se trata disso. O que eu penso é que prender 1.400 pessoas e julgá-las por atacado, sem individualização de procedimentos legais, não é um bom caminho para o país. Se houvesse 1.400 golpistas naquele dia, provavelmente não teriam saído dos prédios oficiais, então é bem razoável afirmar que erros aconteceram. Erros, inclusive, foram admitidos, já que muitas pessoas foram soltas e tiveram seus processos anulados. Pedir para que não haja anistia é acreditar tolamente que agora, exatamente agora, não ontem e nem amanhã, estamos no ‘gabarito’ da punição.

Isso não tem a ver com posição política ou com qual político defende o quê. Tem a ver com humanidade. Pergunto a cada um de vocês – você pediria para não haver anistia se um ente querido seu estivesse na cadeia sem poder se defender dignamente? Você não tem empatia ou se compadece de uma criança que foi privada do convívio com pai ou mãe, sem a observação do devido processo legal?

Houve uma grande anistia no Brasil em 1979. Você sabe se algum familiar seu foi anistiado? Algum amigo seu ou dos seus pais? Você sabe se você já votou em algum anistiado? Você sabe se já consumiu material artístico de alguém que foi beneficiado pela anistia?

Então, antes de fazerem essa reflexão, antes de procurarem saber, peço que não perturbem meu show. Minha arte não é política. Obrigado.“

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Provavelmente, entre as fadas e os pirilampos da plateia, muitos virariam lobisomem por pura vergonha.

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