A arte de falar Merz sem Pará


(Por: Mariano Andrade)


“Eu sei que vai dar merda, mas faço mesmo assim. Eu sei como começa, mas ninguém sabe o fim.” (A arte de fazer cagada, Banda Marília Gabriela)

 

O desenho animado Bolt, de 2008, leva o nome do protagonista da história, um cão que trabalha em produções cinematográficas. Nessas filmagens, Bolt representa um animal com superpoderes que, apesar de seu pequeno porte, é capaz de derrotar exércitos inteiros com sua força descomunal e seu latido poderoso.

Ocorre que o cãozinho pensa que seus “poderes” cinematográficos são reais e a ordem no estúdio é para que essa ilusão seja preservada. Por uma conjugação de fatores, Bolt certa vez sai do estúdio e não consegue retornar, no que constata que há um mundo real além das câmeras, onde seus superpoderes não funcionam.



Lula é como Bolt. Ele nunca se preocupou em aprender a falar bem sua língua nativa e tem zero familiaridade com o vernáculo, porém se julga um mestre da oratória e pensa que, com um microfone na mão, possui superpoderes. Fala de improviso amiúde e profere as maiores barbaridades. Assim como no desenho animado, ninguém da sua extensa trupe diz a Lula que ele, na verdade, não é "super" em nada, definitivamente ele não detém o dom da palavra, da lógica ou do decoro. Ou seja, sabem que vai dar merda, mas fazem mesmo assim.

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Recentemente, na COP-30 em Belém do Pará, o chanceler alemão Friedrich Merz fez um pronunciamento no qual ufanou-se das belezas de seu país e disse que parte de sua comitiva estava feliz em já ter retornado à Alemanha. Realmente, não foi um momento muito feliz do nobre dirigente, sua fala foi no mínimo indelicada com a cidade-sede, embora não tenha falado mal dela de maneira explícita.

Não tardaram posts dos soldados de Lula acusando Merz de “nazista” ou “fascista”, uma reação completamente desproporcional e que banalizava as alcunhas ao extremo (com trocadilho). Alguns autores removeram seus posts, talvez percebendo o ridículo da comparação, mas a revolta com a fala de Merz continuou. Alguns tacharam a declaração do alemão de inconveniente (correto), outros de grosseria (discutível, mas ok), alguns de preconceituosa (apelativo).

Lula, por sua vez, disse que Merz não aproveitou o Pará, que deveria ter ido a um boteco em Belém, dançado e provado a culinária paraense. Segundo Lula, daquela maneira Merz constataria que “o Berlim (sic) não oferece 10% da qualidade que oferecem o estado do Pará e a cidade de Belém”.

Alguns dias depois, já no Planalto e finda a fracassada COP-30, Lula disparou que “aquele rapaz da Alemanha que falou mal de Belém” deveria “pensar com a cabeça onde os pés pisam”, mas que Merz “foi pisar no Brasil, mas sua cabeça não saiu de Berlim porque não conheceu Belém”. Lula continuou: “Você não foi dançar um carimbó, você não foi comer uma maniçoba, você não foi comer um namorado”. E ainda deu conselhos: “Faça como eu, quando viajo para Berlim, eu quero comer joelho de porco, linguicinha frita na carroça, sarchicha (sic) e chucrutes (sic).

A fala de Lula é muito mais inapropriada do que a de Merz. Primeiro, carece de decoro ao chamar o líder alemão de 70 anos de idade de “rapaz” e “companheiro”. Depois, a analogia com “onde os pés pisam” foi descuidada e extemporânea, já que alguns estrangeiros que estavam aproveitando Belém e pisando em suas ruas haviam caído num bueiro destampado havia poucos dias. Ademais, qualquer observador casual ou qualquer ranking de qualidade de vida colocaria Berlim muito acima de Belém, seja em limpeza, saneamento, transporte público, arquitetura. Mas, crucialmente, a fala escancara que Lula viaja com dinheiro público para “turistar” mundo afora e aconselha o chanceler alemão a fazer o mesmo. Se bem que comer salsicha na carrocinha, só se tiver carrocinha nos hotéis luxuosos em que nosso mandatário costuma “investir” o dinheiro público (afinal, “gasto é investimento”, disse certa vez nosso Bolt).

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Como a COP-30 flopou (“FLOP30”, segundo as redes sociais), esse episódio não terá muita repercussão. Muitas outras declarações de Lula não tiveram a merecida repercussão, tais como:

“Vou torcer pro Inter e pro Grêmio”, ao desembarcar no Rio Grande do Sul em meio à calamidade das chuvas de 2024, mostrando descaso pela situação de desespero dos gaúchos, ou

“Os amantes são mais apaixonados pela amante do que pelas suas mulheres”, com doses de machismo e misoginia, ou

“Toda afrodescendente gosta de um batuque”, ao apresentar uma jovem preta que se destacou no programa de aprendizes de uma empresa multinacional e tratando de esteriotipá-la.

Fora do estúdio e dos ambientes controlados, Lula (oops, Bolt) não tem superpoderes.

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O problema são as besteiras e atrocidades que Lula fala ou faz e que têm consequências mais sérias. E são muitas.

Ao dizer que a guerra entre Rússia e Ucrânia poderia ser resolvida numa mesa de bar, ao bradar que o ataque de Israel ao Hamas era comparável ao Holocausto, ao declarar que democracia era um conceito relativo (em alusão à “democracia” de Maduro), ao afirmar que o traficante é vítima do usuário de drogas, Lula empurrou o Brasil alguns degraus para baixo na hierarquia da diplomacia. Quando Lula nomeou seus amigos ao STF (em que pese sua promessa pública de que não iria fazê-lo), Lula contribuiu para deteriorar as instituições brasileiras. Ao usar avião da FAB para abduzir a ex-primeira-dama peruana, condenada à prisão em seu país por corrupção, Lula feriu a soberania da nação vizinha e colocou sua ideologia política à frente da coisa pública. E por aí vai.

De merda em merda sem parar, ninguém pode mesmo saber como termina.

Ao contrário da canção, onde o narrador afirma que “quando acordar, eu vou me arrepender”, Lula não se arrepende de nada disso e coloca o Brasil cada vez mais à margem das discussões de relevo no cenário mundial. Por isso é que a COP-30 não sensibilizou os reais tomadores de decisão sobre assuntos climáticos e, ultimamente, foi um fiasco de proporções amazônicas.

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De quem é a culpa desse não-arrependimento? A imprensa tem um enorme quinhão dela. Trata-se do “quarto poder”, uma instituição necessária a qualquer democracia funcional (aqui sem o relativismo de Lula sobre o conceito). Infelizmente, a imprensa brasileira foi cooptada e tomou lado em uma polarização política que destruirá o futuro da nação se não for desarmada. Os jornalistas, encastelados em seu polo, passam pano para todas as barbaridades que Lula e seus aliados disparam, sejam elas sem ou com consequências relevantes. Perdeu-se, com isso, um contrapeso importante.

Na realidade brasileira, o título da canção (“A arte de fazer cagada”) tem duas peças: fazer cagada já sabemos a cargo de quem está, mas a “arte” fica na conta da imprensa que tortura os fatos, distorce a realidade e dá piruetas para conformar o mundo e os debates importantes à sua narrativa egoísta, conflitada e serviçal.

No nosso estado democrático de direito, com a relativização do termo postulada por Lula, nada pode ser questionado e a imprensa é um cão vigilante. Qualquer conjectura, contestação ou provocação, mesmo que meritória, é classificada como “extrema-direita”, “ataque à democracia” ou “fascismo”. A humanidade dá saltos quando o status quo é questionado ou subvertido, mas, no Brasil, isso é impensável e a imprensa é sempre o primeiro anteparo, invertendo seu honorável papel de fiscalizar, analisar, criticar, informar e construir. Belo caminho o que estamos construindo: estagnação, atraso tecnológico e ignorância.

De cagada em cagada, o Brasil vai perdendo suas instituições, suas instâncias de "checks and balances" e sua relevância na diplomacia e nas grandes discussões globais.

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Na canção, há os versos:

Nunca mais na vida eu bebo
Chega de viver no limbo
Dessa vez me endireito

Endireitemo-nos e saiamos do limbo, 2026 já chegou. A bebida nem precisa de explicação.


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