Sabbath Blessed Sabbath


 (Por: Mariano Andrade)

 

“They say I worship the devil / Why don't they open their eyes / I'm just a rock 'n' roll rebel”

(Ozzy Osbourne em "Rock’n roll rebel")


“Talento é acertar um alvo que ninguém acerta. Genialidade é acertar um alvo que ninguém vê.”

(Arthur Schopenhauer)

 

Nunca haverá uma banda de rock tão grande quanto o Black Sabbath. Isso não é uma opinião, é um fato.

Ozzy Osbourne, vocalista original da banda, faleceu apenas duas semanas após o catártico show de despedida do quarteto em sua cidade natal. Mesmo acometido por uma doença degenerativa, as canções da banda e o encontro com os fãs foram tão poderosos que Ozzy tirou forças do além para entregar uma performance memorável. Semitonou? Sim. Alcançou todos os agudos de outrora? Não. Mas não usou corretor de voz, não mudou tom de músicas e deu uma aula de presença mesmo sentado e sem a força física para correr pelo palco e pular incessantemente como fazia nos seus shows. Uma performance memorável.

Parecia que Ozzy precisava se despedir de seus fãs antes de dar adeus à vida. Se assim foi, então ele deve ter ido em paz.

Essa coda já seria o bastante para definir o Black Sabbath como uma banda única na história do rock’n roll.

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Mas tem muito mais.

O Black Sabbath inventou o heavy metal. Não foi Led Zeppelin com seu blues no volume 10, nem Deep Purple com seu hard rock de guitarra e órgão virtuosos. Foram os quatro jovens de Birmingham, abençoados por uma sequência de eventos aleatórios que são contados com maestria nas autobiografias de Ozzy Osbourne e Tony Iommi.

Tony Iommi tocava guitarra com uma banda local chamada Mythology. O grupo havia conseguido patrocínio para sair em turnê e Tony já havia comunicado que deixaria seu emprego de metalúrgico numa fábrica da cidade para perseguir a carreira musical. No seu último dia no emprego, Tony teve que trocar de posto na linha de produção por conta da ausência de um colega. E, queria o destino que, naquele último dia, ele sofresse um acidente no maquinário, perdendo a ponta dos dedos médio e anular da mão direita. Como Tony é canhoto e tocava com a guitarra invertida, o acidente havia mutilado sua "fretting hand" e acabava com seu sonho.

Tony tentou reaprender o instrumento invertendo a posição da guitarra, sem sucesso. Estava à beira de desistir quando descobriu o músico belga Django Reinhardt – um virtuoso das seis cordas que havia perdido os dedos anular e mínimo num incêndio e tocava o instrumento usando apenas dois dedos na escala. Tony então produziu próteses para servir de falanges, mas, como o aparato o machucava durante a execução das músicas, resolveu experimentar afinações mais graves, reduzindo a tensão das cordas em até um tom e meio (afinação em dó sustenido). Aí surgia o som do Black Sabbath e nascia o heavy metal.

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John Michael Osbourne cismou que queria ser cantor. Convenceu o pai a comprar um alto-falante (PA). Sem qualquer estudo ou técnica vocal, mas munido de seu recém-adquirido equipamento, ele espalhou anúncios em várias lojas da cidade com os dizeres “OZZY ZIG NEEDS GIG – HAS OWN PA” (Ozzy Zig seria seu pretenso nome artístico). Tony Iommi (já depois do acidente), Geezer Butler e Bill Ward estavam formando uma banda e não tinham ainda um cantor. Como eram todos muito duros, resolveram dar uma chance para o tal Ozzy Zig, muito por conta de ele já possuir um PA. O Zig saiu, mas Ozzy ficou.

O quarteto não tinha dinheiro e não conseguia espaços para se apresentar. Sempre que algum grupo conhecido ia tocar nas redondezas, eles iam até a porta do local do show portando seus instrumentos e pediam para fazer um número de abertura, o que nunca funcionava. Numa dessas tentativas, observaram um cinema absolutamente lotado nas redondezas, havia um filme de terror famoso em cartaz. Os jovens concluíram que temas sombrios atraíam a atenção do público e resolveram batizar a banda de Black Sabbath.

(Donde conclui-se que toda a besteirada de satanistas é só uma besteirada mesmo. Ozzy e seus amigos eram apenas "rebeldes do rock", como ele cantaria anos mais tarde.)

Certa vez, tentavam convencer o gerente de um teatro local a fazer o show de abertura para o Jethro Tull, recebendo a tradicional negativa como resposta. No entanto, a van do Jethro Tull havia enguiçado na estrada e – num mundo mais aleatório sem celular para avisar – o público ficava impaciente com o atraso. A solução do gerente foi mandar o Black Sabbath para o palco e o show impromptu foi um sucesso.

Quando o Jethro Tull chegou, o líder Ian Anderson ficou tão impressionado com o som de Tony Iommi que, logo depois, o convidou para ingressar na banda. A estada de Tony no Jethro Tull acabou durando menos de um ano e, felizmente, ele voltou para o Black Sabbath em caráter definitivo. E o grupo deu ao mundo o heavy metal.

O Black Sabbath conseguiu iniciar sua carreira e ter seu som marcante por uma série de aleatoriedades – E se Tony tivesse partido em turnê antes do acidente? E se o pai de Ozzy não tivesse comprado o PA, afinal eram duros? E se o Jethro Tull tivesse chegado na hora? E se Ian Anderson tivesse conseguido manter Tony na sua banda?

Só nos resta dizer: Sabbath Blessed Sabbath!

Do Pior ao Melhor: Black Sabbath – Consultoria do Rock

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Ozzy não tinha qualquer formação musical, mas tinha uma voz marcante e coragem para bradar a plenos pulmões. Canções como “Symptom of the universe”, “Dirty women” e a icônica “Sabbath bloody sabbath” são exemplos de espetacular poder vocal. Geezer Butler tocava baixo de uma forma virtuosa, preenchendo as canções como se a banda contasse com uma segunda guitarra. Bill Ward tinha uma energia incrível, com viradas que não terminavam e se transformavam na marcação da música (“War pigs”, “Electric funeral”). E Tony Iommi, uma fábrica de riffs memoráveis e atemporais, era a liga de todos esses talentos em estado bruto. O Sabbath criou alguns dos maiores hinos do rock, dentre eles “Wars pigs”, talvez o maior de todo o gênero.

A banda lançou álbuns absolutamente essenciais como “Paranoid” (gravado em apenas três dias) e “Sabbath bloody sabbath”. O Black Sabbath era puro talento, com a banda conseguindo harmonia entre riffs pesados, andamentos candenciados e partes que beiravam o jazz ou a bossa-nova – “Planet caravan”, o refrão de “Sabbath bloody sabbath” e o final de “Sympton of the universe” são bons exemplos desse contraste surpreendente e original. O Sabbath conseguia ao mesmo tempo ser singelo em temas como “Fluff” e “Changes”, elegante em “Supertzar” e matador em “Snowblind”.

Mesmo após a primeira saída de Ozzy, o grupo continuou produzindo clássicos como “Heaven and hell”, “Mob rules” e mesmo o controverso “Born again”. Apesar do calibre dos músicos, a sonoridade certamente mudou com a saída de Ozzy, mostrando como a química original era única...

... Mas as idas e vindas criaram o maior curriculum vitae do rock’n roll. Os riffs estavam sempre lá, bem como a originalidade e as canções clássicas, sempre entoadas por uma grande voz do rock. É por isso que nenhuma banda superará o Black Sabbath.

Afinal, que outra banda pode ostentar em seu histórico cantores do calibre de Ozzy, Dio, Ian Gillan e Glenn Hughes? Ok, o álbum gravado com Glenn Hughes foi mais um trabalho solo de Iommi do que uma peça do Sabbath, mas o “voice of rock” estava lá. Como se não bastasse, o Sabbath contou com o “metal god” Rob Halford em algumas apresentações ao vivo.

(Nota – Pena que uma certa empresária tenha alimentado uma rivalidade infantil com os cantores que passaram pelo Sabbath depois de Ozzy. Isso nos impediu de ouvir clássicos como “Heaven and hell”, “Die young”, “Children of the sea”, “Trashed” e outros na voz de Ozzy Osbourne quando ele retornou à banda. Ela se esqueceu da lição de Ozzy no clássico “Crazy train” – maybe it’s not too late, to learn how to love and forget how to hate.)

(Nota 2 – Aliás, a mesma criancice atrapalha a carreira do Deep Purple. Ian Gillan simplesmente prefere ignorar clássicos como “Mistreated” e “Burn”.)

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E o que dizer de Ozzy como artista-solo? Ele simplesmente revelou ao mundo três guitarristas geniais – Randy Rhoads, Jake E Lee e Zakk Wylde.

Randy Rhoads contou em uma entrevista que foi contratado enquanto ainda afinava seu instrumento para a audição com a banda – na régua de Schopenhauer, uma manifestação da genialidade de Ozzy. Randy Rhoads continua influenciando grandes guitarristas apesar de sua morte prematura ter limitado o quanto produziu. Clássicos como “Mr. Crowley” (com dois dos melhores solos de guitarra da história do rock) e “Crazy train” são peças simplesmente gigantes no universo guitarrístico.

A carreira solo de Ozzy ainda conta com outras muitas canções memoráveis como “Goodbye to romance”, “Tonight”, “Bark at the moon”, “Shot in the dark” (esta com autoria disputada), “No more tears”, e tantas mais. Ozzy foi capaz de levar Lemmy Kilmister, líder do barulhento Motorhead, a co-compor a lindíssima balada “Mama I’m coming home”. E, mesmo já tendo acumulado muita tarimba como vocalista, Ozzy continuava a cantar a plenos pulmões em faixas como “I just want you”.

Enquanto a mídia preferiu focar nas (muitas) histórias de extravagância e loucura de Ozzy em sua fase solo, o rock’n roll agradece pelas canções com que ele nos brindou.

(Nota – É verdade que a empresária de Ozzy comercializou demasiadamente sua imagem e sua carreira, o que, muito provavelmente, atrapalhou a produção musical em alguns momentos e legou coisas ridículas como a alcunha “príncipe das trevas” e o lamentável embate jurídico com membros originais da Blizzard Of Ozz.)

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Ozzy se foi, mas ele profetizou: you can’t kill rock’n roll, it’s here to stay.

Que Ozzy e Dio estejam cantando juntos e se divertindo muito agora. O que não falta é músico bom para acompanhá-los!

Grupo de pessoas posando para foto

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Que Tony, Geezer e Bill se inspirem e possam fazer uma turnê com Ian Gillan, Rob Halford e Glenn Hughes dividindo os vocais (e, por que não, com Tony Martin também?) e passando pelo Brasil, por favor!

Que o mundo moderno volte a permitir surpresas e aleatoriedades tão fortuitas.

E que os fãs de rock aproveitem os grandes que ainda estão conosco.

 

(P.S. – Enquanto alguns perdem o dedo e criam um legado atemporal, outros se encostam e nada produzem)


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