Skip to main content

A greve mais grave

Está anunciada uma greve “geral” para 28 de abril, sexta-feira. Está longe de ser uma greve geral, pois diversos setores produtivos estarão em pleno funcionamento, contribuindo para tentar tirar a economia do buraco em que a meteram. Trata-se de mais uma cortina de fumaça dos sindicatos e partidos de esquerda, com objetivo de desviar a atenção da opinião pública da realidade que está sendo desnudada pela operação lava-jato. E, convenientemente, a tal greve acontecerá na véspera de um feriadão.

Os baderneiros já aprontaram outras bagunças nos últimos anos. Tudo motivado pela política e pelo desespero de estarem perdendo as benesses que acumularam ao longo dos últimos governos.

Muitas pessoas não repreendem essas manifestações, mesmo sem concordar com sua motivação, amparando-se na defesa do direito constitucional à greve. Quem pensa assim foi iludido pelo teatro dos desordeiros, pois o direito à greve refere-se ao debate de questões patronais. Convocação de greve geral por agenda política fere o espírito da Constituição.

De outra forma, tudo viraria pretexto para greve. Qualquer notícia vinda de Brasília que desagrade a um ou outro grupo: tome greve! Aumentaram o imposto da cerveja? Greve! O Flamengo perdeu no STF? Greve! É esse o país que queremos? Lembrem-se do que está escrito na nossa bandeira: “Ordem e progresso”. Ordem: funcionamento normal e organizado, previsibilidade, segurança.

**

Há um aspecto especialmente temerário nesta dinâmica: a paralisação de aulas em diversas escolas de grandes cidades.

Este ano, várias escolas paralisaram as aulas em 15 de março com a justificativa de que as matérias em discussão em Brasília naquele dia eram de enorme interesse e importância para os profissionais do ensino, e que seria importante que eles acompanhassem seu desenrolar. Mesmo que fosse este o motivo, tratar-se-ia de um racional raso, pois, de forma análoga, os bancos deveriam parar de operar nas datas em que qualquer matéria concernente ao setor fosse ser discutida. Bem como transportes, hospitais, segurança pública ou qualquer outro setor econômico. Se todos adotassem postura similar, viveríamos num caos (os capixabas que o digam). Portanto, a decisão de algumas escolas por suspender as aulas em março foi inoportuna, passando às crianças e aos jovens a mensagem de que seu colégio coaduna com a desordem ou que, no mínimo, certas agendas externas preponderam sobre a boa condução da atividade acadêmica, objetivo-primo da escola.

(A quem interessar, a verdade é outra: houve movimentação dos grupos de esquerda e dos professores-militantes imiscuídos nas escolas para fomentar a paralisação.)

Já seria um absurdo em escolas públicas, mas nas particulares é um disparate de proporções napoleônicas... Eis que, ao longo desta semana, várias escolas particulares anunciaram nova paralisação por conta da greve “geral” de sexta-feira. De novo, ela não será geral: algumas escolas com diretorias mais lúcidas e imparciais já avisaram que as aulas estão mantidas (há alguma luz no fim do túnel?).

Mesmo que a greve fosse legítima (de novo, com o intuito de discutir questões patronais – não é o caso), não cabe ao empregador dar a bênção para que seus funcionários participem da manifestação. É uma subversão da ordem natural das coisas: o empregado é que deve optar por aderir ou não a interrupção, assumindo os riscos e eventuais sanções se o fizer. A empresa, por sua vez, deve envidar melhores esforços para que o serviço contratado seja prestado ao cliente a contento, mesmo que em regime de contingência.

Contudo, o ponto fulcral nesses episódios é a crescente politização das escolas particulares (as públicas, em sua maioria, são um caso perdido infelizmente). Muitas instituições particulares – em seus comunicados – dizem-se democráticas e defensoras de movimentos que busquem o bem comum e a justiça. Ora, cabe a cada observador julgar se determinada manifestação visa, de fato, bem comum e justiça, sendo que discordar e debater é a prática mais saudável. O fato de um colégio interromper as aulas – ou seja, sancionar a greve –  inevitavelmente o posiciona a favor dela, suprimindo a possibilidade de debate e retirando dos alunos a liberdade para formar suas próprias opiniões de maneira independente. O colégio assume o papel de juiz, senhor da verdade e prontamente expede seu veredicto.

Mais uma vez, no intervalo de apenas um mês, os colégios que dão seu aval à greve passam aos seus aos alunos a ideia de frivolidade do processo acadêmico, que pode ser interrompido e bagunçado por qualquer evento exógeno. Esta mensagem enfraquece a legitimidade de o colégio cobrar do aluno seu máximo empenho nas atividades acadêmicas. Ou seja, cria o risco de o processo de aprendizagem ser sensivelmente prejudicado no longo prazo.

Uma das tarefas mais difíceis para educadores é fazer com que crianças e jovens se interessem por atualidades. As escolas perdem uma grande oportunidade de fazê-lo ao suspender as aulas, pois poderiam usar o tema que (supostamente) justifica a greve como tópico de debate em sala. Poderiam transformar polêmica em conteúdo pedagógico. O quê está acontecendo no nosso país? Por que as pessoas protestam? Quais os pontos positivos da manifestação (ninguém disse que educar é fácil...)? Quais as consequências negativas?

Até aqui, os grandes vencedores este ano são os professores militantes e suas respectivas facções que, através das repetidas paralisações, conseguem perpetrar o incrível feito de já plantar a semente para futuramente colheitar massa de manobra nesta geração mais jovem, que apenas começa (ou que nem iniciou) sua vida política. E, pior: contam com a anuência da escola, à revelia dos responsáveis e sendo remunerados (sem desconto pela falta) com o suado dinheiro dos pais. Pais estes que pagam impostos, não recebem do estado o serviço essencial de educação e ainda têm um teto risível de desconto no imposto de renda para a rubrica de educação privada.

Nosso país vive uma transição política, uma lavagem de roupa suja a céu aberto e uma recessão econômica, tudo ao mesmo tempo. Haverá muitos protestos em 2017 e em 2018, ano eleitoral. Se os colégios seguirem paralisando as aulas sempre que houver qualquer manifestação – seja ela de qualquer corrente política ou sob qualquer égide – será impossível terminar o ano letivo com completude do conteúdo pretendido, além de perigosamente ratificar a mensagem para os alunos que o compromisso acadêmico é secundário, fluido ou irrelevante.

Nota zero para tudo isso. Reprovados!

Comments

Popular posts from this blog

Intelectuais, uma vírgula

Ah, nossos intelectuais... Que turminha tinhosa. Não perdem a chance de se imiscuírem em qualquer debate, sobre qualquer assunto, sendo que em 99% dos casos defendem ideias datadas, estapafúrdias e/ou de interesse próprio (mas não prescindindo do disfarce altruísta).
Recentemente, num ato em suporte ao juiz Bretas (e, claramente, expondo o lamentável Gilmar Mendes) parecem ter tido o raro 1% de acerto. Será?
Quase. Bateu na trave. O cartaz que foi utilizado para o “momento Kodak” do evento continha um erro grosseiro de português. “Não se separa o sujeito do predicado com vírgula”, repetem ad nauseum os professores de Língua Portuguesa. Mas nossos intelectuais cravaram lá: “O Rio, está com você”. Respondendo na mesma moeda: “Este autor, lamenta que vocês tenham tanto espaço na mídia”.


Não foi só em Língua Portuguesa que nossa “elite intelectual” levou bomba na escola. Não aprenderam nada em matemática. Qualquer criança de seis anos que já saiba somar e diminuir consegue antever que aq…

Pretérito mais-que-imperfeito

O ex-ministro Pedro Malan certa vez disse que, no Brasil, até o passado é incerto. Não é 100% verdade. Há a certeza de que o passado sempre muda para pior, trazendo consequências que garantem que o Brasil nunca será o país do futuro.
A recente MP 806 que altera a tributação de fundos exclusivos é a perfeita demonstração disso.
Há cerca de 15 ou 20 anos, a Receita criou o “come cotas”. Parece nome de videogame vintage mas não é – tratava-se de um sistema para antecipar a cobrança de imposto de renda devido por cotistas de fundos de investimento.
Antes do nosso Pac-man fiscal, os cotistas eram tributados somente no resgate. Ou seja, um investidor pessoa-física que detivesse um título de 5 anos seria taxado apenas no vencimento do papel, ao passo que o cotista de um fundo de investimento que detivesse títulos de 1 ano e reinvestisse o capital todo ano só seria taxado no resgate de suas cotas, quem sabe ao final de 10 anos. Dito de outra forma, um fundo com estratégia de investimento de curt…

Grapiche

A determinação do prefeito de São Paulo, João Dória, em estabelecer uma sensação de ordem é louvável. A política “no broken window” de Rudolph Giuliani foi uma das alavancas para a transformação de NY em uma cidade segura. No caso de São Paulo, o primeiro alvo foi repintar os muros pichados e grafitados em locais onde tal prática não estava autorizada. Nada mau, certo?
Errado. Começa o mimimi. “Grafite é arte”, “pichação é uma maneira democrática de o povo se manifestar”, e por aí vai. Sério mesmo que a ordem pública (condição necessária mas não suficiente para progresso) tem que se sujeitar a essa discussão? Parece que sim, infelizmente.
O brasileiro paga muito caro por obras públicas, que acabam custando o triplo do que deveriam e demorando o quíntuplo do prazo estimado. E o povo reclama disso, com razão, vai às ruas protestar, grita, faz abaixo assinado. Qual é, então, o sentido de um sujeito pichar uma obra pública? Está ferindo o patrimônio público tal qual o político que desvia di…