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Sunôb demográfico

Atenção: a Companhia Municipal de Iluminação abrirá 50 vagas para acendedores de postes. Não é necessária experiência prévia. Os candidatos devem comparecer à sede da empresa. Esta notícia certamente pertenceria ao século XVIII ou XIX, correto? Não necessariamente...

Há poucas semanas, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro votou pela proibição da função dupla do motorista de ônibus. Ou seja, se o prefeito sancionar o texto, será necessária a presença de um cobrador em cada coletivo.

O leitor pode pensar “isso é bom porque gera emprego”. No entanto, quem cai na tentação de tecer este raciocínio não percebe que o custo do cobrador é pago por toda a sociedade. A passagem de ônibus fica mais cara e isso afeta o custo do vale-transporte pago pela empresas, que por seu turno repassam o encargo para o preço de seus produtos. Portanto, quando o cidadão compra um chocolate ou um xampu, está pagando um preço onerado pelo o custo do cobrador de ônibus.

“Mas o município pode subsidiar a passagem”... Bem, neste caso, todos nós pagamos com impostos maiores. Não tem jeito, assim como não há almoço de graça, não há cobrador de ônibus de graça.

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O Brasil teima em manter vivas certas profissões que são absolutamente anacrônicas: cobradores de pedágio, ascensoristas, trocadores de ônibus, frentistas e outras. Num mundo que caminha para self-driving cars, nós precisamos de elevadores com motorista!

Em diversos lugares do mundo, o pedágio é automatizado por fotografia (no Brasil, somente as multas gozam de tal eficiência), os elevadores são inteligentes, e os frentistas são opcionais. Nas metrópoles do primeiro mundo, os motoristas de ônibus exercem também a função de cobrador e, pasmem, funciona bem!

O parquímetro foi patenteado nos EUA na década de 1930 – desde então, evoluiu barbaramente. Em muitas cidades americanas, os parquímetros atualmente em funcionamento permitem pagamento com cartão de crédito ou celular e ainda alertam por SMS quando o tempo está próximo de expirar, permitindo que o usuário adicione mais créditos remotamente. No Brasil, muitas cidades “discordam” deste avanço tecnológico e preferem utilizar guardadores de veículos munidos de tíquetes de papel.

Quem defende o flanelinha, o frentista e o cobrador de ônibus pela ótica da “preservação do emprego” pratica populismo em seu mais puro estado. O trabalhador que exerce uma função sem qualquer valor para a sociedade impinge a todos um custo, seja por repasse a preços e/ou por impostos mais altos. Seria preferível o estado pagar um bom seguro-desemprego do que criar leis que protejam cargos inúteis. Não há diferença alguma entre o poder concedente exigir que os ônibus tenham cobradores e o estado construir e operar fábricas de TVs preto-e-branca para diminuir o desemprego.

(Parênteses: O argumento de que o cobrador aumenta a segurança do ônibus é absolutamente estapafúrdio. Ou seja, se houvesse dois cobradores a segurança seria ainda maior? Queremos resolver o problema do mau motorista colocando alguém para contar dinheiro? Por analogia, então, o ascensorista torna o elevador sem manutenção mais seguro.)

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O livre-mercado sacramentou o fim dos acendedores de postes, pois a luz elétrica mostrou-se mais eficaz – em uma economia liberal, as profissões obsoletas vão sendo esvaziadas, algumas até a extinção. O contingente economicamente ativo migra para novas funções que produzam mais riqueza para a sociedade, buscando com isso rendimentos maiores para si. É a mão invisível – eis uma ideia do século XVIII que deveríamos preservar...

No Brasil ocorre o oposto: a insistência em manter funções obsoletas por força de lei faz com que o país  tenha um bônus demográfico ao contrário: um sunôb demográfico . Estamos ocupando população economicamente ativa em cargos que destróem riqueza para a sociedade. O sujeito que tem emprego de ascensorista é um custo para todos – como já discutido – e não tem qualquer incentivo de curto prazo para procurar outro emprego em uma função que agregue valor. Assim como o cobrador. Assim como o frentista. Assim como o sindicalista. Assim como o suplente de parlamentar.... a lista é longa.

É a mão visível do estado empurrando a economia para trás.

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Imagine o leitor que um prefeito decida duplicar a quantidade de vias expressas de uma cidade. Para tanto, as vias que antes eram divididas em duas pistas são repintadas e passam as ter quatro pistas. Um aumento de 100% na disponibilidade de vias expressas. Depois, concluindo que a pistas resultantes ficaram estreitas demais, a prefeitura repinta o asfalto retornando para a configuração original de duas pistas, uma queda de 50%. Ainda assim, liquidamente, a prefeitura aumentou 50% a quilometragem de vias expressas (100% menos 50%), certo?

Se o raciocício acima parece esdrúxulo (ou cômico), note-se que ele é análogo a tentar crescer o PIB empregando frentistas, ascensoristas, cobradores e atendentes de pedágio. Estamos só pintando e repintando, sem sair do lugar.

Keynes deve estar bastante orgulhoso do Brasil.

(Com agradecimentos ao meu colega Henrique)

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