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Vox odiosis

1983. I can’t believe the news today. Assim começava a canção Sunday Bloody Sunday, que ajudou o U2 a ganhar popularidade, precedendo sua ascensão ao estrelato alguns anos mais tarde com o álbum Joshua Tree.

Naquela época, mesmo contando com músicos tecnicamente limitados, o U2 compunha músicas poderosas, pautadas por mensagens pacifistas e permeadas pela originalidade do guitarrista The Edge. Sunday Bloody Sunday foi uma dessas canções, com letra inspirada na tensão nacionalista/separatista entre Irlanda do Norte e o restante do Reino Unido que escalou substancialmente nos anos 70 e 80.

Bono Vox era a personificação do sujeito do povo, sem firulas de estrela do rock, desferindo vocalizações potentes e cruas e congregando os fãs a se distanciarem do “sistema”.

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2017. I can’t believe the news today. É mesmo inacreditável a notícia de que Bono Vox é esperado no Brasil para o julgamento de Lula no caso do tríplex em janeiro de 2018.

Aparentemente, Bono terá como companhia Pepe Mujica (o do fusquinha e da maconha) e Bernie Sanders (o “ensanderscido”senador americano, cujos neurônios devem ter congelado no frio de Vermont), figurinhas fáceis em eventos de cunho populista. Não se surpreendam se Sean Penn, apologista de traficante mexicano, e Danny Glover, admirador de Hugo Chávez, vierem para o convescote. E, quem sabe, também tenhamos o chatonildo Roger Waters, que segue vivendo de músicas gravadas há 40 anos mas não se furta a palpitar sobre assuntos atuais, mesmo que não lhe caibam, expondo seu anti-semitismo sempre que possível. Todos eles teriam bastante destaque no PSOL.

A intenção de Bono Vox em vir ao Brasil é ainda mais ridícula por conta daquilo que sua figura representava originalmente e de sua projeção atual. Tudo bem o “sujeito do povo” ter se tornado um bilionário chato que dá pitaco em questões ecológicas e geopolíticas sem ser chamado, enquanto seu competente time de gestão investe em participação no Facebook via paraísos fiscais (afinal, qual pacifista gosta de pagar impostos?) e The Edge compõe as músicas do próximo disco. Mas se meter em questões soberanas é demais da conta – a presença de Bono pretende passar para o mundo a imagem de que as instituições brasileiras conspiram contra Lula. E pior, estimula ainda mais o confronto físico de facções políticas, não bastasse Lula e o PT já terem demonstrado grande competência em instigar os ânimos. Cadê o pacifista?  Bono, saiba que se você vier, pode ser responsável direto por uma Wednesday Bloody Wednesday no dia 24 de janeiro.

Seria muito bono que esse sujeito aprendesse algumas coisas sobre Lula antes de palpitar. Lula não é pacifista: ao contrário, invoca o seu “exército” de sem-terras a lutar nas ruas contra a população de bem. Lula não é honesto: há provas incontestáveis de inúmeras falcatruas suas. Ou algum irlandês alienado ainda acredita que os R$ 9 milhões um único investimento de Lula são fruto de seu trabalho honesto como palestrante da Odebrecht? Será que Bono prefere viver sob o mantra “when fact is fiction and TV reality”? A Lava-jato já prendeu dezenas de políticos, por que diabos a suposta conspiração é apenas contra Lula? Bono, saiba que vamos nos livrar do PT with or without you.

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A maioria dos artistas brasileiros são uns bobalhões. Mas a turma lá de fora faz força para acompanhar. Até quando a imprensa dará tanto espaço para essa trupe falar besteira? Até quando a opinião pública não saberá separar um bom artista de suas ideias tresloucadas? How long? How loooong?


Bono, a mensagem correta para o povo brasileiro vem de outra canção do U2: em outubro, lembremos que “it takes a second to say goodbye”. Vamos votar certo e dar adeus de vez esta cambada que explodiu o país. Demora um segundo.


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