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Infinita Ráiuei



O talentoso compositor Humberto Gessinger devia estar inspirado pelas autobans quando compôs os versos da canção Infinita Highway: “Cento e dez, cento e vinte, cento e sessenta, só prá ver até quando o motor aguenta”. Se estivesse pensando numa estrada brasileira, os versos seriam algo do tipo “Oitenta, cento e dez, radar, máxima de cinquenta, quebra-molas, passando a trinta senão arrebenta, de novo cento e dez, opa – agora é só noventa, só pra ver quanta multa a gente aguenta”.

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Nossa BR-040, por exemplo, é uma estrada cheia de contradições, assim como a letra do hit dos Engenheiros do Hawaii. O trecho Rio-Juiz de Fora não chega a ser uma autoban, mas é uma boa highway de pista dupla e acostamento, onde predomina velocidade máxima de 110 km/h que parece adequada. Depois de Juiz de Fora, vira uma ráiuei tupiniquim da pior qualidade e com todos os opcionais...

... Tem-se uma miríade de quebra-molas, radares no meio do nada, placas antigas e postos policiais desguarnecidos. E, o pior de tudo, algo como dez diferentes limites de velocidade... isso porque as autoridades ainda atêm-se somente aos múltiplos de dez.

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As estradas brasileiras são horrorosas, tipicamente muito piores que a BR-040. O programa de concessões privadas iniciado há cerca de 20 anos não deu jeito, pois foi extremamente mal-concebido (leia-se: amador). Basicamente, os contratos exigiam que o concessionário cumprisse um cronograma mínimo de investimentos e não impunham marcos de melhoria tangíveis, tais como instalação de cercas divisórias ou de olhos-de-gato. Ou seja, criou-se espaço para as pinturas de faixa mais caras do mundo. Usando o exemplo da BR-040: depois de Juiz de Fora em direção a BH, não há qualquer anteparo fazendo a divisão central da pista. Ou seja, há risco de batida frontal a uma velocidade relativa superior a 200 km/h.

Para piorar, o Brasil tem cinco ou dez vezes o número necessário de municípios, e com eleições a cada quatro anos. Ou seja, centenas de candidatos de minúsculas localidades prometem quebra-molas – invenção brasileira – para “aumentar a segurança da população”. Pronto, tascam quebra-molas a torto e a direito. Além disso, existe a sanha arrecadadora das três esferas executivas, então tome radar de tudo o que é tipo e com limites de velocidade variando o máximo possível ao longo da via.

Resultado: viagens infindáveis e com infinita insegurança.

O motorista conhecedor das artimanhas arrecadatórias brasileiras prestará atenção desproporcional ao Waze e aos avisos de “radar reportado à frente”. Com infinitos limites de velocidade distintos, os olhos do condutor ficarão demasiado tempo desviados para a telinha do aplicativo. O corolário óbvio é que a concentração no trajeto e nos demais veículos será subtraída. “Você me faz correr demais os riscos dessa highway”.

Os quebra-molas são ainda mais temerários. Os desenvolvedores do Waze certamente não conhecem esta revolucionária tecnologia brasuca e, com isso, o aplicativo não avisa quando haverá um deles pelo caminho. Se para um veículo leve o quebra-molas já é um baita perigo, para um caminhão carregado pode ser mortal.

“Você me faz correr demais os riscos dessa highway”... Quem sabe, na verdade, Humberto Guessinger estivesse mesmo pensando numa estrada brasileira?

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É vastamente documentado o erro cognitivo do ser humano de se julgar acima da média em determinadas atividades. A habilidade de conduzir um veículo é um dos quesitos onde este efeito é mais pervasivo e mais pronunciado. Com tantos redutores de velocidade pelo caminho, o motorista da infinita BR tentará, munido de autoconfiança exagerada, compensar o tempo de viagem conduzindo acima da velocidade permitida naqueles trechos onde não há radar ou quebra-molas. “Você me faz correr atrás do horizonte desta highway”. Perigo. Acidente. Mortes.

“Mas eu tinha medo, medo dessa estrada”. É para ter medo mesmo. O risco é de todos, dos que conduzem a 80, a 100 ou a 160 km/h. Enquanto o poder público exagera ao retirar liberdades individuais impondo um toque de recolher apelidado de “lei seca”, deixa tudo correr solto nos avanços de sinal nas cidades e na parafernália que torna nossas estradas mortais. (*)

“E a sombra do sorriso que eu deixei, numa das curvas da highway.” Infelizmente, mais e mais histórias terminam – literalmente – assim. Triste ráiuei.


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(*) A lei seca é um assunto para um texto futuro. Mas o argumento de que proibir qualquer consumo de álcool ao motorista diminui de maneira desejável o número de acidentes por embriaguez é absolutamente falacioso. Se proibíssemos a venda de carros a particulares, teríamos ainda menos acidentes. Se proibíssemos a circulação e venda de bebidas alcóolicas, idem. Se houvesse de fato um toque de recolher às 20h, não só os acidentes cairiam a quase zero, mas também os assaltos, os estupros, etc. Essas medidas seriam também "desejáveis"? E como ficam as liberdades individuais? 

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