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Na sala de aula

Escola e classe hipotéticas. Professor, infelizmente, baseado em fatos reais. Aula de História em algum lugar do Brasil.

— Bom dia, turma. Hoje vamos falar sobre democracia, um conceito que nasceu na Grécia Antiga e...

— Professor – interrompe um aluno – Se é um conceito tão antigo, por que vamos estudá-lo? Estamos no século XXI...

— Boa pergunta. Ideias boas, como as de Marx e outros, mesmo que antigas, devem ser bem entendidas para, então, ser colocadas em prática. No caso em pauta, é importante estudar o que é democracia para entendermos bem o golpe de estado que ocorreu no Brasil este ano. Vejam que...

— Professor, Marx não é aquele escritor que pregava a socialização dos meios de produção?

— É sim – completou outro aluno – E as ideias dele nunca deram certo. Nem em Cuba, nem na Venezuela e nem na Coréia do Norte, só levaram a sofrimento, miséria e atraso. E tem mais...

— Silêncio – interrompe “democraticamente” o professor. O assunto que vamos estudar hoje é democracia. Vamos nos ater a ele, certo? Como eu ia dizendo, a democracia surgiu na Grécia Antiga, nas cidades-estado gregas, onde cada cidadão adulto tinha direito a votar e escolher seus representantes no poder. Os candidatos que tivessem mais votos, e portanto mais alinhados aos interesses do povo, recebiam um mandato para governar.

— Professor, então os Estados Unidos não são uma democracia! – brada um aluno.

— E nem a Inglaterra! – diz outro.

— Gente, pondera o professor, acho que vocês estão trocando as bolas. Por que dizem isso?

— Professor, nos Estados Unidos, o voto popular é apenas uma recomendação de voto para o colégio eleitoral daquele estado, que pode acatar ou não a vontade do povo. Ademais, na eleição de 2000, Al Gore recebeu um número maior de votos mas não foi eleito, pois perdeu em número de delegados. George W Bush foi eleito com menor votação popular que Al Gore.

— Que besteira! , diz outro aluno. Claro que os Estados Unidos são uma democracia, todas as pessoas têm direito a expressar suas opiniões, são livres e podem ir e vir à vontade. O estado existe para servir o povo, e as pessoas têm pleno direito de reclamar e exercer sua cidadania de forma participativa. E o sistema bipartidário evita oportunismo ideológico e partidos de aluguel como temos aqui.

— Você é um filhote de enlatado, meu filho! Ataca o professor. Os Estados Unidos são um país opressor que...

— Um país muito bom, isso sim, diz outro aluno – Já vivi lá e as pessoas têm uma vida digna, mesmo aquelas que ganham menos. E, apesar de o voto ser por colégio eleitoral, todos concordam que se vive numa democracia. Inclusive, o voto é facultativo, pois as pessoas são livres também para optarem por não votar.

— Chega, interrompe o professor, já irritado. Alguém falou em Inglaterra? Gostaria de ouvir...

— Sim, fui eu – identifica-se um aluno no fundo da sala. A Inglaterra não é uma democracia pois tem rei, que não é escolhido democraticamente.

— Você está enganado, rebate outro aluno. Os ingleses escolhem seus parlamentares pelo voto direto, bem como o primeiro-ministro. O rei é o chefe de Estado, que representa o país em certas funções. Mas o chefe de Governo é o primeiro-ministro, que é escolhido pelo voto popular. São dois poderes distintos, e o sistema funciona muito harmoniosamente, não só no Reino Unido como também em outros países.

— Mas o rei pode dissolver o parlamento, responde o aluno do fundo. Isso é golpe!

— Não, não é golpe. É um mecanismo para interromper um parlamento que não goze mais da confiança do povo. É democracia na veia, pois é um ato para proteger o povo de um governo temerário. É algo usado muito raramente nas monarquias constitucionais como Reino Unido e Espanha.

— Silêncio, grita o professor. Estamos fugindo do tema. Quero falar do golpe de estado que ocorreu no Brasil este ano. Um mandato legítimo foi interrompido pelo parlamento.

— Professor, os parlamentares tinham poderes legítimos para isso?

— Ãaaa, bem, isso é discutível. Veja que apenas em caso de crime comprovado os parlamentares poderiam...

— Professor, os parlamentares não são eleitos pelo povo? Eles não nos representam então para julgar se o impeachment procede?

— Bem...

— Claro que não, diz outro aluno. O modelo brasileiro é completamente distorcido. Apenas uns 30 deputados foram eleitos com seus próprios votos, os outros 500 foram ajudados pelos votos da legenda.

— É mesmo?, pergunta uma aluna. Explica melhor?

— Explico. Alguns deputados que receberam muitos votos – e portanto eram os escolhidos do povo – acabaram não sendo eleitos porque o sistema brasileiro também leva em conta os votos em cada partido.

— Que absurdo! Quer dizer que aqueles representantes que o povo escolheu não são os que receberam o mandato?

— Exato.

— Que doidera. Isso não é democracia!

— Não mesmo. E muitos dos deputados que se elegeram com votos dos outros ficam falando de golpe à democracia, veja você...

— Silêeeeencio! Chega dessa zoeira, grita o professor. É claro que temos uma democracia, onde vocês estão com a cabeça? Infelizmente, este ano tivemos um golpe, inclusive condenado por governos de outros países, Cuba, Venezuela e outros. Mas eu confio que em 2018 a esquerda vai...

—Hahahaha, explode de rir uma aluna. Cuba e Venezuela nos acusaram de golpe de estado? Professor, a turma que está no poder em Cuba há quase 60 anos nunca recebeu um voto. O senhor está louco? E a Venezuela tem um governo...

— Fora de sala! Já para a coordenação.

— Peraí, diz um aluno. Professor, na democracia cada cidadão pode expressar sua opinião e é necessário conviver com as diferenças. Do contrário, há abuso de poder que, se não for coibido, invalida o status de democracia em primeiro lugar. Então...

— Fora de sala você também! Os dois engraçadinhos vão se entender com a coordenação.

—  Alto lá, diz a representante de turma. Eu fui eleita com o voto popular, um voto para cada aluno, sem quociente eleitoral ou outro truque qualquer. Então, investida desse poder, eu digo que vamos exercer uma democracia aqui.

— Mandou bem! Isso aí! Bravo! Os gritos ecoavam pela sala, enquanto o professor asistia perplexo.

—   Silêncio, por favor – pede a representante. Quem vota para o professor sair de sala, levante a mão... Pronto. Agora, quem vota para nossos colegas saírem de sala, levante a mão... Certo... Professor, em nome da democracia, retire-se da sala. O senhor pode tentar lecionar essa baboseira em Cuba ou na Venezuela. Boa sorte.


E, então, diversos alunos desta turma ingressaram na vida pública. Anos mais tarde, conduziram uma reforma política no Brasil, de forma a acabar com os partidos-anões, o quociente eleitoral e outras jabuticabas. Final feliz.


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