Skip to main content

Zeros à esquerda

Uma das observações mais intrigantes quanto aos políticos de esquerda é a diminuta posição patrimonial que insistentemente declaram à Justiça Eleitoral. Este ano, na eleição municipal do Rio de Janeiro, houve alguns representantes importantes desta trupe: Molon - antes de herdar alguns bens – reportava R$ 26 mil enquanto Freixo informa a quantia de R$ 5 mil.

Ora, um cidadão que ganha salário mínimo e consegue, após certo tempo, acumular R$ 5 mil, ou R$ 26 mil, é um herói. Ele mostra disciplina orçamentária e diligência em seus investimentos. Em contrapartida, é muito curioso que um parlamentar com salário mensal de R$ 20 mil (ou mais) além de incontáveis ajudas de custo chegue ao final de vários mandatos (ou mesmo de meio mandato) com um patrimônio tão pequeno...

Há algumas hipóteses não-excludentes a serem consideradas para explicar este fenômeno:

  1. A declaração à Justiça Eleitoral não ser fidedigna
  2. O sujeito ser um gastador patológico
  3. O sujeito ser um péssimo investidor de suas reservas
  4. O sujeito ser um destacadíssimo filantropo
  5. Os bens que o sujeito possui terem sido recebidos como presentes ou pertencerem, na verdade, a amigos 

Vejamos uma a uma.

  1. Se a declaração de bens não é fidedigna, o candidato burla a lei e, portanto, não tem qualificação ética para disputar um cargo público.
  2. No caso de o candidato ser um perdulário incontrolável, é uma temeridade que ele seja eleito e assuma a “gestão” dos recursos públicos. O Brasil já viu como foi a performance da gerenta/presidenta nesta disciplina... Não faltou aviso, pois sua lojinha de artigos a R$ 1,99 não foi muito longe...
  3. Um salário de R$ 20 mil, acrescidos de diversas ajudas de custo, é suficiente para fazer frente a  muitas despesas mensais. Ou seja, deveria sobrar algum trocado – R$ 2 mil por mês parece perfeitamente factível. Ao final de cada mandato de 4 anos, essas economias, se guardadas embaixo do colchão (ou na cueca, como a turma de esquerda costuma fazer), somariam R$ 96 mil. Se investidas na poupança (normalmente um mau investimento), resultariam em algo como R$ 108 mil ao final de um único mandato. Ou seja, o sujeito tem que ser um péssimo investidor para conseguir a proeza de deter um valor tão baixo. Será que os candidatos decidiram, em uníssono, acreditar na gerenta e comprar tudo em ações da Petrobrás ?
  4. Não se pode descartar a hipótese de os nobilíssimos candidatos socializarem sua riqueza, algo tão defendido por eles... Mas é improvável que sejam filantropos tão magnânimos a ponto de lhes sobrar um patrimônio tão minguado. Se este fosse o caso, estariam veiculando tal virtude aos quatro ventos em seus programas eleitorais... #sóquenão... Rejeita-se esta hipótese.
  5. Sem comentários.


Os valores reportados são, de fato, altamente intrigantes, ou mesmo impossíveis. A analogia aqui é um motorista que declara ir de carro do Rio de Janeiro a São Paulo em 3 horas, uma velocidade média superior a 140 km/h... Possível? Sim. Provável? Não. Se a declaração for ainda mais exagerada – 2 horas para percorrer o trajeto – não é necessário nem ponderar sobre o tema, pois a velocidade média necessária – superior a 210 km/h – é inexequível. Rejeitar-se-ia sumariamente a hipótese de o motorista estar falando a verdade. Cinco mil reais de poupança seriam 140 km/h ou 210 km/h? O leitor decide.

Por que então esta obsessão dos políticos de esquerda em reportar tantos zeros à esquerda de seus patrimônios e tão poucos à direita, informando valores que beiram o não-crível?

(Parênteses: Aliás, Lula é o ícone desta obsessão. Tinha faturamento suficiente com “palestras” para justificar as aquisições de seu tríplex e de seu sítio... Mas, como colocou o prefeito Eduardo Paes, Lula ainda tem alma de pobre. Só a alma.)

Uma possível explicação vem da nossa conexão lusitana. As Capitanias Hereditárias foram cedidas a amigos do rei, que sabidamente não eram pessoas competentes, honestas ou de bem. Portanto, já no início de nossa História, ter dinheiro podia ser uma mancha no caráter. Mais tarde, com a vinda de D João VI, oficializou-se a venda de favores reais para bancar o déficit galopante da corte. Ou seja, quem era endinheirado metia-se em esquemas e negociatas. E por aí vai. É uma pena que ainda não tenhamos vencido este estigma...

... Será por esse motivo que os candidatos mais abastados, Molon (mais de R$ 1 milhão reportado, após herança) e Jandira (R$ 550 mil informados), tenham tido uma votação tão inexpressiva? O fato é que Freixo – com seus R$ 5 mil – foi o grande preferido das esquerdas.

Os paulistanos felizmente já viraram a página da preferência caridosa por “hipossuficientes”. Elegeram um empresário de sucesso que declarou possuir bens de quase R$ 200 milhões. Muito melhor ter este cidadão como gestor do que alguém que não consegue administrar suas finanças domésticas (mesmo com polpudos salários e benefícios), seus investimentos ou sua lojinha de R$ 1,99.

O Rio de Janeiro e muitas outras praças, infelizmente, ainda preferem os zeros à esquerda.


Comments

Popular posts from this blog

Intelectuais, uma vírgula

Ah, nossos intelectuais... Que turminha tinhosa. Não perdem a chance de se imiscuírem em qualquer debate, sobre qualquer assunto, sendo que em 99% dos casos defendem ideias datadas, estapafúrdias e/ou de interesse próprio (mas não prescindindo do disfarce altruísta).
Recentemente, num ato em suporte ao juiz Bretas (e, claramente, expondo o lamentável Gilmar Mendes) parecem ter tido o raro 1% de acerto. Será?
Quase. Bateu na trave. O cartaz que foi utilizado para o “momento Kodak” do evento continha um erro grosseiro de português. “Não se separa o sujeito do predicado com vírgula”, repetem ad nauseum os professores de Língua Portuguesa. Mas nossos intelectuais cravaram lá: “O Rio, está com você”. Respondendo na mesma moeda: “Este autor, lamenta que vocês tenham tanto espaço na mídia”.


Não foi só em Língua Portuguesa que nossa “elite intelectual” levou bomba na escola. Não aprenderam nada em matemática. Qualquer criança de seis anos que já saiba somar e diminuir consegue antever que aq…

Pretérito mais-que-imperfeito

O ex-ministro Pedro Malan certa vez disse que, no Brasil, até o passado é incerto. Não é 100% verdade. Há a certeza de que o passado sempre muda para pior, trazendo consequências que garantem que o Brasil nunca será o país do futuro.
A recente MP 806 que altera a tributação de fundos exclusivos é a perfeita demonstração disso.
Há cerca de 15 ou 20 anos, a Receita criou o “come cotas”. Parece nome de videogame vintage mas não é – tratava-se de um sistema para antecipar a cobrança de imposto de renda devido por cotistas de fundos de investimento.
Antes do nosso Pac-man fiscal, os cotistas eram tributados somente no resgate. Ou seja, um investidor pessoa-física que detivesse um título de 5 anos seria taxado apenas no vencimento do papel, ao passo que o cotista de um fundo de investimento que detivesse títulos de 1 ano e reinvestisse o capital todo ano só seria taxado no resgate de suas cotas, quem sabe ao final de 10 anos. Dito de outra forma, um fundo com estratégia de investimento de curt…

Grapiche

A determinação do prefeito de São Paulo, João Dória, em estabelecer uma sensação de ordem é louvável. A política “no broken window” de Rudolph Giuliani foi uma das alavancas para a transformação de NY em uma cidade segura. No caso de São Paulo, o primeiro alvo foi repintar os muros pichados e grafitados em locais onde tal prática não estava autorizada. Nada mau, certo?
Errado. Começa o mimimi. “Grafite é arte”, “pichação é uma maneira democrática de o povo se manifestar”, e por aí vai. Sério mesmo que a ordem pública (condição necessária mas não suficiente para progresso) tem que se sujeitar a essa discussão? Parece que sim, infelizmente.
O brasileiro paga muito caro por obras públicas, que acabam custando o triplo do que deveriam e demorando o quíntuplo do prazo estimado. E o povo reclama disso, com razão, vai às ruas protestar, grita, faz abaixo assinado. Qual é, então, o sentido de um sujeito pichar uma obra pública? Está ferindo o patrimônio público tal qual o político que desvia di…