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Primeira Exibição

Nos anos 80, a porta de entrada de um filme na grade da Rede Globo era o “Primeira Exibição”. Tratava-se da sessão que ia ao ar aos sábados logo após a novela da oito, sempre trazendo um filme inédito na TV brasileira. Depois de debutar no Primeira Exibição, o filme passava a fazer parte do catálogo da Rede Globo e ocasionalmente era reprisado na Sessão da Tarde, no Corujão, ou em outros programas.

Como ocupavam um horário nobilíssimo, os filmes do Primeira Exibição eram esticados ao limite da paciência do telespectador para incluir o máximo de inserções comerciais. O filme começava na “parte 1”, mas logo no primeiro momento de maior tensão já vinha o primeiro intervalo comercial. Voltava na “parte 2” e, de novo quebrando o clímax: intervalo comercial. E assim iam seguindo “parte 3”, “parte 4”, “parte 5”. Quando o mistério ia ser desvendado quase no finzinho do filme... intervalo comercial!!?! Então, após longa espera, o filme retornava com o gerador de caracteres mostrando “parte final”, parte essa que demorava meros três minutos, mas que constituia o desfecho indispensável da história.

Com esse expediente, a sessão do Primeira Exibição demorava o dobro do tempo do filme em si. E, apesar do abominável intervalo comercial derradeiro, a “parte final” era indispensável e imperdível, mesmo às altas horas.

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Depois de algumas décadas, o “Primeira Exibição” está novamente no ar. O Brasil está prestes a estrelar um filme nunca antes exibido – a destituição de um governo populista, caudilho, corrupto e miliciano sem que haja derramamento de sangue. Os filmes que a História nos mostra na Sessão da Tarde são diferentes, envolvem luta armada, guerra civil, ou outro sortimento de sacrifício de vidas humanas quando cai o castelo de cartas.

O governo petista, apesar da inflamação recentemente ensaiada por Lula, não tem mais força para mobilizar as massas. Seus repetidos e acintosos “malfeitos” erodiram completamente seu capital político. Basta ver os ridículos movimentos pró-Dilma que pipocam aqui e ali, contando com cinquenta pessoas, todas elas remuneradas pelo gordo orçamento corrupto do PT, sindicatos, e afins. A “multidão” vermelha que apoiava Lula quando ele terminou seu depoimento em Congonhas contava com algumas dezenas de gatos pingados. E Lula ainda acha que dá para guerrear, segundo a nobre deputada cujo vídeo vazou. A platéia já está cansada e espera ansiosamente a “parte final”.

A queda do PT será como o Primeira Exibição: demorou muito mais do que deveria por conta dos intervalos. Lula e sua gangue já deveriam ter sido enxotados no escândalo do mensalão. Mas o boom das commodities gerou renda e engordou os programas sociais, o que – aliado à propaganda nazista do PT que tomou para si a autoria dos ventos de progresso – parou o filme para um grande intervalo.

Contudo, o roteiro foi ficando mais denso, a trama começou a ser revelada, a indignação seguiu crescendo e, em 2013, as manifestações ganharam corpo e o povo foi às ruas. O governo balançou, mas contra-atacou reduzindo impostos de carros e geladeiras, mandando que os bancos públicos abrissem as torneiras do crédito e turbinando ainda mais os programas sociais. Arrancou, com isso outro, intervalo: e tome comercial do governo no horário nobre financiado com o dinheiro público.

Mais à frente, o PT ainda conseguiu cavar outro break com o estelionato eleitoral de 2014. Quem não se lembra de Dilma afirmando que a inflação estava sob controle, que a conta de luz não ia aumentar e tantos outros sofismas?

Mas o filme volta a rodar. Na tela, vê-se o trabalhador desempregado, a saúde pública de joelhos, os impostos escorchantes, os escândalos sem fim, a sociedade civil se aglutinando em busca de um futuro melhor... O roteiro esquenta de vez, mas aí vem outro intervalo: manobras daqui e dali, recesso, Carnaval. “Parte 3”, “parte 4”, “parte 5”... Vai chegando o final do filme: a polícia finalmente fecha o cerco no chefão, a tensão cresce: o que vai acontecer? Intervalo de novo?


Só que alguma hora o filme vai acabar. Por mais que o intervalo final seja longo e detestável, ele termina e o desfecho da história é então revelado. Dia 13/3, o filme voltará a rodar, começará a “parte final” e o Brasil fará História.


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