Skip to main content

Rock in Sampa

Mais uma edição do Rock in Rio. Esse ano, como sempre, um monte de coisa que não é rock: Fergie, Ivete, etc. Tudo bem, pois os fãs de rock foram brindados com shows irretocáveis de clássicos como Def Leppard e Tears for Fears, além da lenda do rock The Who.

Certo? Errado.

As apresentações dessas bandas foram, de fato, excepcionais. Mas a organização do evento fez trapalhadas que o roqueiro carioca e os milhares de turistas que prestigiaram o evento não podem perdoar.

Def Leppard é uma banda cheia de história. O cancelamento da vinda na primeira edição do Rock in Rio, a amputação do braço de Rick Allen, a volta por cima com o mega-álbum Hysteria (um dos discos mais vendidos da história), a morte de Steve Clark e a ressurreição do conjunto com Vivian Campbell. E uma incontável coleção de clássicos nessa trajetória, um deles “Foolin“, música indispensável nos shows da banda desde o álbum Pyromania.

Bem... exceto no Rock in Rio. A desastrada organização, independente da magnitude do artista, fixou o tempo de cada show e obrigou o Def Leppard a abreviar seu setlist. É isso mesmo: o fã que esperou desde 1985 pela banda não ouviu “Foolin“ e algumas outras canções porque o tempo era cronometrado e controlado. Tudo a ver com rock ‘n roll!

Como teria sido Woodstock se algum executivo mandasse: “Hey, Mr. Hendrix, finish this guitar solo right now! You need to finalize the concert on time!" ?

Aproveitando o gancho, tivemos este ano o gigante The Who, um sobrevivente de Woodstock, um dinossauro do rock, uma lenda viva mesmo sem Keith Moon e John Entwistle. Apesar de ter ajudado a inventar o rock, o The Who não ganhou o status de headliner, aparentemente celebrando um acordo de cavalheiros com a organização e o Guns’n Roses. Isso mesmo: Guns’n Roses, aquela banda que tem três ou quatro discos de estúdio e que adora fazer covers de monstros como Bob Dylan, Paul McCartney e Aerosmith para rechear seu material inconsistente. (Certo, Guns tem alguns clássicos como Sweet Child O’Mine, Civil War, You Could Be Mine, mas também muito lixo digno de bandinha de garagem no meio)

Até dava para relevar a ordem das bandas, afinal o rock cura... Mas os organizadores tiveram a insensatez de manter a limitação de tempo até para o show do The Who, não obstante se tratar de Roger Daltrey e Pete Townshend. É o mesmo que tirar o Pelé no intervalo do jogo decisivo para dar chance a um garoto do juvenil. 

Resultado: o setlist do The Who foi minorado em três ou quatro canções. Retificando: três ou quatro hinos, um deles “The seeker”. Adivinhe quem tocou esta música naquela noite? Guns’s Roses! Isso mesmo: barraram o original para dar mais tempo à cópia. Fazendo jus a seu repertório limitado, um desafinado Axl Rose apelou para uma penca de covers para encher seu setlist. Clássicos do rock made in China.

Parece maluquice mas pode acreditar, " 'cause baby I'm not foo-foo-foo-foolin" !!

Em se tratando de questão de ordem, a ironia é que The Who não pôde executar seu setlist completo mas Axl pode corriqueiramente atrasar o início de seu show em 2 horas que é sempre convidado a retornar ao festival. Democracia é isso aí. Chinese Democracy, melhor dizendo.

O fã de rock que não se importava em perder Ivete e Fergie pôde acompanhar The Who e Def Leppard em São Paulo. E, surpresa: ouviu “Foolin“, “The seeker” (a original) e outras tantas.

Definitivamente, o Rio de Janeiro é a cidade do funk e do pagode. Somos deaf, dumb and blind. Sir Paul McCartney e U2 tomaram a acertada decisão de não passar por aqui em suas atuais turnês. Isso aqui é Anitta, po@*#a!!

Mr. Medina, who do you think you are? 


Comments

Popular posts from this blog

Pretérito mais-que-imperfeito

O ex-ministro Pedro Malan certa vez disse que, no Brasil, até o passado é incerto. Não é 100% verdade. Há a certeza de que o passado sempre muda para pior, trazendo consequências que garantem que o Brasil nunca será o país do futuro.
A recente MP 806 que altera a tributação de fundos exclusivos é a perfeita demonstração disso.
Há cerca de 15 ou 20 anos, a Receita criou o “come cotas”. Parece nome de videogame vintage mas não é – tratava-se de um sistema para antecipar a cobrança de imposto de renda devido por cotistas de fundos de investimento.
Antes do nosso Pac-man fiscal, os cotistas eram tributados somente no resgate. Ou seja, um investidor pessoa-física que detivesse um título de 5 anos seria taxado apenas no vencimento do papel, ao passo que o cotista de um fundo de investimento que detivesse títulos de 1 ano e reinvestisse o capital todo ano só seria taxado no resgate de suas cotas, quem sabe ao final de 10 anos. Dito de outra forma, um fundo com estratégia de investimento de cur…

O candidato antifrágil

O autor Nassim Taleb cunhou o termo antifrágil para descrever mecanismos ou sistemas que se tornam mais robustos quando expostos a intempéries. Normalmente, encontra-se a antifragilidade em populações, ao passo que o indivíduo é – em geral – frágil.
Restringindo a análise ao campo político e aos últimos 6 meses, Jair Bolsonaro talvez seja um dos poucos indivíduos antifrágeis já observados. Quanto mais é agredido – seja por adversários ou pelos “jornalistas” – mais cresce nas pesquisas.
Há 6 meses, todos os analistas políticos diziam que Bolsonaro não estaria no 2º turno. Ponderavam que sem partido forte, sem aliados, sem coligação e sem tempo de TV, seria apenas um modismo. Erraram: hoje a questão é quem estará no 2º turno com ele. Ou, mesmo, se haverá um 2º turno.
Ninguém pode afirmar que entende a dinâmica que está acontecendo, mas este artigo tenta formular uma hipótese.
**
Jair Bolsonaro estabeleceu-se como a alternativa anti-establishment. Não importa se já está em seu sétimo mandato …

Fogo vermelho

“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la” (Edmund Burke)
O museu mais visitado do Brasil é o Museu do Amanhã no Rio de Janeiro. Trata-se de um prédio com arquitetura arrojada – embora de gosto discutível – e sem acervo algum.
Apesar do conteúdo praticamente inexistente, hordas de jovens “culturamente engajados” visitam o “museu” para tirar uma boa dose de selfies e postá-las nas redes sociais. São quase um milhão e meio de visitantes por ano, contra cerca de 500 mil do MASP, para desgosto de Cândido Portinari e Anita Malfatti.
Com esse retrospecto, não era de se esperar que a juventude brasileira capturasse a magnitude da tragédia que foi o incêndio do Museu Nacional e a destruição de muitas de suas preciosas peças e coleções. Ainda assim, mesmo munindo-se das piores expectativas, não houve como não se surpreender pela baixeza com que autoridades e populares se comportaram.
**
Diante do luto de historiadores, museólogos e brasileiros em geral, viu-se um lamentável…